Reduz 1,2 pontos percentuais sua estimativa para este ano e a mantém para 2023 em 3,6%

A eurozona será a região mais afetada pela guerra, tanto pelo nível de vinculação comercial como por sua dependência energética

A MAPFRE Economics, o Serviço de Estudos da MAPFRE, adverte que, após um primeiro trimestre que convidava ao otimismo, “o condicionante geopolítico aprofundou o choque de oferta, o que vai provocar uma deterioração importante do nível global de atividade e um aumento das pressões sobre os preços, com divergências por regiões”. Conforme incluem no informe “Panorama Econômico e Setorial 2022: perspectivas para o segundo trimestre”, publicado hoje, os economistas esperam um crescimento de 3,6% para 2022, frente a 4,8% do trimestre prévio, e de 3,6%, em 2023, com uma inflação em alta que alcançaria 6,8% e 4,1% em média no último semestre em cada um dos exercícios.

Estes são os números com os quais trabalham em seu cenário base ou central, isto é, aquele que mais probabilidades tem. Mas para isso o impacto da pandemia deve ser já mínimo e o conflito geopolítico deveria ser mais limitado em tempo, com sanções consistentes com as já estabelecidas que perdurarão mais além de 2022. Neste cenário, os preços do petróleo e gás permanecerão acima dos 100 dólares durante todo o ano. Mas dada a incerteza, o Serviço de Estudos contempla, como é habitual em seus relatórios, um cenário conturbado, mais próximo de uma situação de estagflação e no qual se daria um recorte adicional de 4 décimos no PIB e um aumento da dinâmica inflacionista. Em última instância, apesar de que com menor probabilidade, acrescenta agora um cenário de ‘choque’ que inclui o risco de recessão.

Para a Espanha, e em seu cenário central, a MAPFRE Economics prevê um crescimento de 4,2% este ano (frente aos 5% prévios) e de 3%, no próximo (frente aos 4,3% do relatório anterior Panorama). Como risco principal aponta para o custo energético e uma possível ampliação da inflação em todas as variáveis”. Neste sentido, os acréscimos na alimentação são evidentes (6,8% em março) e os altos preços dos fertilizantes irão “piorá-los”; enquanto o acréscimo de preços na produção é surpreendentemente alto (+40,7% em fevereiro), devido aos custos da eletricidade e do gás, motivando a interrupção da produção em muitas fábricas.

Na opinião dos especialistas, “o problema energético não tem uma rápida solução e a intervenção no preço, ainda que não convencional, permitiria ajustá-la à realidade do mix de produção espanhol”. Deve-se agir com cautela, pois não chegar a uma fórmula de preço coerente, pode desincentivar o investimento justamente quando é mais necessário”, acrescentam. Não obstante, mostram-se otimistas com a recuperação do turismo e, de novo, acham fundamental “o aproveitamento eficaz dos fundos da União Europeia para gerar dinamismo na economia espanhola”.

O Serviço de Estudos considera que a eurozona vai ser a região mais prejudicada pelo conflito da Ucrânia, tanto pelo nível de vinculação comercial como por sua dependência energética. “O risco para a economia da eurozona é principalmente o aumento da inflação, que vai reduzir a renda disponível dos consumidores e as margens das empresas, fazendo com que estas sejam mais cautelosas em suas decisões de investimento, o que passará a conta para o crescimento da economia. A resolução do problema energético será fundamental nos próximos meses e até mesmo anos. Enquanto a inflação só se moderará pelo efeito base, o ciclo vicioso do acréscimo de preços começou e voltar a canalizar a dinâmica inflacionária será uma tarefa difícil”, explicam. Isto os levou a reduzir sua previsão de crescimento de 3,9% para 2,9% para este ano, enquanto mantêm 2,7% para 2023.

Para os Estados Unidos (com uma previsão de crescimento do PIB de 3,2% para 2022 frente aos 4% anteriores), esperam um impacto menor da crise geopolítica. “Sua autossuficiência energética, o limitado vínculo comercial com a Rússia e um mercado profissional sólido dão uma resiliência maior ao exposto e a um consumo em clara deterioração em termos reais”, indicam.

Por último, apesar de ter laços menos estreitos e dependentes, os mercados emergentes enfrentam um impacto mais fragmentado: positivo para aquelas economias exportadoras de matérias-primas como o petróleo e derivados, metais e certos alimentos, entre outros, e negativo para aquelas economias emergentes intensivas em manufaturas que enfrentam estes elevados preços em sua capacidade produtiva. “No caso particular da China (com uma nova previsão de crescimento econômico de 4,8% para 2022 frente a 5% do ano anterior) e certos satélites intensivos da indústria asiática, soma-se tanto o risco das sanções diretas que poderiam amplificar o problema, como o ambiente da política de tolerância zero diante da pandemia que está provocando novos confinamentos em cidades como Xangai, Changchun, Jilin, Shenzhen e Langfangy, agravando com isso os gargalos de origem asiática que, dada sua relevância global, exacerbariam o choque de oferta e, com isso, o risco de estagflação, indicam na MAPFRE Economics.

Impacto no setor segurador

Este contexto macroeconômico de maior incerteza vem tornar mais sombrio o panorama para o setor segurador cuja rentabilidade pode ser afetada de forma negativa pela erosão que supõe a inflação nas margens empresariais, aumentando a pressão sobre os preços dos seguros em um momento em que o processo inflacionista vem a reduzir o poder aquisitivo das família e torna mais difícil trasladar aos preços o aumento nos custos que isto supõe.

Quanto ao volume de negócio Não Vida, os seguros de automóveis continuarão acusando a queda de registros de novos veículos (ainda longe dos níveis pré-crises), amplificada pelos gargalos na oferta derivados da escassez de semicondutores e de certos metais como o alumínio, do qual a Rússia é um dos principais produtores. Estas disrupções nas cadeias de fornecimentos continuam lastrando os novos registros de veículos, repercutindo de forma negativa no negócio dos seguros deste ramo.

Pelo lado positivo, no entanto, em termos de volume de negócio, algumas linhas de atividade como os seguros de saúde e de Vida risco podem ver-se beneficiados de uma maior sensibilidade ao risco de doença e falecimento em consequência da pandemia e da guerra, especialmente nos países onde os sistemas sanitários públicos são mais débeis. Outros segmentos de negócio importantes, como são os multirriscos residenciais e industriais, também costumam mostrar-se resilientes nestas situações.

Quanto ao panorama para os seguros de Vida em que o tomador assume o risco do investimento, os retrocessos e a alta volatilidade dos mercados de valores dificultam sua comercialização, o que obrigará as entidades seguradoras a adaptar seus produtos a um novo ambiente em que as taxas de juros livres de risco e os prêmios de risco na renda fixa estão se elevando pela retirada dos estímulos monetários. Assim, o negócio dos seguros de Vida investimento enfrenta um panorama mais complexo em que, sem dúvida, o mercado de títulos soberanos e corporativos está adquirindo um maior protagonismo.